sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Lewis Carrol e sua suposta pedofilia


Lewis Carrol

Sim, é um assunto polêmico. Infelizmente muito se diz sobre a suposta pedofilia do escritor inglês Lewis Carroll (1832-1898), autor de um dos livros infantis mais lidos no mundo, Alice no país das maravilhas (1865); que, aliás, é o meu preferido dentro da literatura infantil não nacional. Atrás do espelho de suas aventuras fantasiosas, narradas ao gosto do mais carrolliano nonsense, estão os bastidores de uma história mal contada, que já rendeu um sem número de interpretações e permanece cheia de lacunas. Afinal, que estranha relação era aquela entre um homem 20 anos mais velho e Alice Liddell, a garotinha de sete anos, que virou musa inspiradora do livro, ”melhor amiga” e modelo de uma série de fotos que mais parecem obra de um incorrigível pedófilo? Será que alguma vez o reverendo Charles Lutwidge Dogson, nome verdadeiro de Carroll, era mesmo pedófilo? Bom, não posso dizer que essa suspeita dos historiadores não me deixa um pouco desconfortável, já que eu admiro o cara pra caramba. Do muito que li a respeito, nada se comprova definitivamente, mas as dúvidas permanecem no ar há mais de um século.


Alice Liddell (a verdadeira Alice)

Um dos maiores especialistas em Carroll e sua obra do mundo, Gardner, fez um texto paralelo às histórias da menina Alice, com notas tão elaboradas que são quase ensaios, revelando novidades fascinantes sobre seu autor e suas personagens no recente livro Alice ”O fato é que o nonsense de Carroll está longe de ser tão aleatório e despropositado quanto parece”, anuncia Gardner. Muitos psicanalistas e biógrafos acreditam que não era mesmo um amor despretensioso que Lewis carregava no fundo por essas meninas. Mãe de Alice queimou cartas de Lewis Carroll, nas quais ele se despedia da menina com ‘10 milhões de beijos’ e e costumava pedir cachos de cabelos de presente para beijar. As explicações são inúmeras, como se pode ver nas anotações de Gardner, que cita várias fontes de interpretação, como a da psicanalista Phyllis Greenacre, para quem talvez Carroll tivesse um Édipo não-resolvido, sendo possível que identificasse as menininhas com a mãe. Assim, Alice seria o símbolo materno de Carroll. Afinal, a diferença de idade entre o autor e sua musa era quase a mesma que o separava de sua mãe, diz a psicanalista, assegurando que essa ”inversão da fixação edipiana é bastante comum”.


Alice em uma das fotos polêmicas de Carrol

Pode ser, tudo pode ser. Na verdade, as excentricidades de Lewis Carroll, solteirão convicto, reverendo que jamais conseguiu chegar a ser pastor devido à gagueira e a uma timidez incurável, são tantas que, assim como o nonsense de sua ficção, dificultam uma conclusão definitiva. Como explica Gardner na introdução da edição comentada, a dificuldade de analisar qualquer obra cheia de fantasia é a profusão dos símbolos convidativos a inúmeras interpretações. ”Como Homero, a Bíblia e todas as outras grandes obras de fantasias, os livros de Alice prestam-se facilmente a qualquer tipo de interpretação simbólica - política, metafísica ou freudiana”, declara. Shane Leslie, por exemplo, em Lewis Carroll and the Oxford movement, encontra em Alice uma história secreta das controvérsias religiosas da Inglaterra vitoriana. O pote de geléia, diz o comentador de Alice, seria o símbolo do protestantismo. Uma referência a Guilherme de Orange - captou? E por aí se seguem dezenas de outras interpretações tão bizarras quanto a própria obra.


Nenhuma especulação, no entanto, desperta tanta curiosidade quanto as que se referem à vida do autor e à sua relação com Alice. Na leitura que faz da questão, Gardner esquiva-se de apostar na tese de pedofilia, deixando a questão em aberto. ”Estava Carroll apaixonado pela Alice real? Sabemos que a sra. Liddell percebeu algo de insólito nas atitudes dele em relação à filha, tomou medidas para desencorajar-lhe as atenções e finalmente queimou todas as primeiras cartas para Alice”. Mais à frente, ele completa: ”As menininhas de Lewis Carroll talvez o atraíssem precisamente porque com elas se sentia sexualmente seguro. Havia na Inglaterra vitoriana uma tendência, que se reflete em grande parte na literatura e na arte, a idealizar a beleza e a pureza virginal das meninas. Isso sem dúvida tornou mais fácil para Carroll dar por certo que seu gosto por elas se situava num elevado plano espiritual.”
Uma das melhores páginas sobre esse conflito não está, no entanto, nesta edição comentada, mas sim na interpretação de Katie Roiphe, autora de Still she haunts me (Ela ainda me assombra), livro que romaceia a relação entre Carroll e Alice. Para Roiphe, ensaísta renomada que deu com essa história seu primeiro passo na ficção, há uma certa nobreza no autocontrole de um homem que lutou a mais árdua de todas as batalhas do mundo: seu próprio desejo. Ela diz: ”É impossível para nós contemplar um homem que se apaixonado por garotinhas sem querer colocá-lo na prisão. As sutilezas, para quem vive as paranóias do século 20, são difíceis de serem compreendidas. O amor de Carroll não era nabokoviano; era delicado, torturado e esquivo. Era uma paixão muito estranha e complicada para ser definida em uma única palavra”, escreve. Ao fim de um artigo escrito recentemente para o jornal The Guardian a respeito de Carroll, ela conclui: ”Ele tinha pensamentos, impuros, sim. O que importa, no fim, é o que ele fez deles.”

Apesar de muitos indícios e inegáveis fatos – fotos e cartas-, estou com Gardner, fico neutra. Não sei de nada. Ele tinha problemas e ponto. Claro que tinha. Não era normal, senão não tinha escrito um livro tão maravilhoso e cheio de nuances e interpretações como ‘Alice no País das Maravilhas’, mas ainda assim o admiro e espero que ele realmente tenha segurado a onda, vivendo contido em seus desejos e loucuras. Quem sabe?

Paz e bençãos!
Namastê!

2 comentários:

Mraya (NeoConcepts) disse...

Estou lendo a edição comentada e estou com você nessa também!

nightrider disse...

puxa,adorei sua matéria sobre Lewis Carroll!!tbem adoro o livro Alice no país das maravilhas!!adoro Carroll e tbem suas belas fotografiasq(que não eram só de menininhas)com personagens interessantes e paisagens maravilhosas da época!belo trabalho!!!!!