
-Oi Mãe!
-Oi Filha!
-Esqueci de te falar...
-Ah... Já sei.
-Sabe?
-Sei mãe.
Esse ano eu sei. Até estranhei que você não ia falar nada...
-Ai menina, desliguei o telefone e me lembrei...
-To vendo...
-Então se você sabe, ótimo. Não vai renegar o Santo igual o ano passado...
-Imagina mãe, eu nunca reneguei!
-Sei... Ficou falando um monte de gracinha...
-Não, já aprendi. Não brinco mais com o Santo Antônio... Eu devia ter te escutado...
-Humm... Você não leva nada a sério mesmo, né!
-Não, claro que eu levo! Não, não... Amanhã é dia de Santo Antônio e hoje meia noite eu estarei acendendo uma vela pra ele!
-Acho bom mesmo, tem que ter fé no Santo menina!
-Eu tenho! Opa!
-Mas eu vou continuar a rezar por você, vai que você esquece...
-Não senhora! Lembra o ano passado? Essa historia de você pedir um homem ‘bom’... O Santo Antônio está com dificuldade de entender... Muito subjetivo isso...
-Que isso menina! Deixa de bobagem... Eu falo tudo com ele: um homem bom, que te entenda, que te faça feliz...
-Iiiii pó parar. O Santo não está entendendo nada mesmo! Tudo subjetivo. Que me entenda? Veja só a dificuldade do Santo. Eu não preciso de alguém que me entenda não. Nem eu me entendo. Que me faça feliz sim, mas depende do que o Santo pensa sobre ‘felicidade’ né... Eles têm uma outra visão de mundo, de outro mundo na verdade...
-Ai quanta bobagem! Eu to falando sério! Eu vou desligar... Você não quer saber e eu me preocupando... Deixa que eu faço do meu jeito...
-Nãooooooooooooo!
-Eu vou rezar sim porque você não sabe de nada.
-Eu entendo de mim. Ou quase. Mas sei dos meus quereres. Pódexá que eu já fiz uma listinha...
-Ai pra quê exigir tanto, idealizar... Não existe homem perfeito menina.
-Ah eu exijo sim! Sou uma idealista! Não fui achada no lixo.
-Ah isso não foi mesmo! Tem que ser um rapaz bom mesmo.
-Lá vem você com esse ‘bom’: já te falei pra não ser subjetiva, olha o que me aconteceu... Me trouxeram um ‘bom’ de lábia, um ‘bom’ de sumir do mapa.... E um muito bom mesmo. Mas tão bom, tão bom que ele é autosuficiente e não precisa de nada e nem de ninguém.
-Ai Jesus...
-Mãe, olha que bizarro... Já reparei uma coisa: todos eles não tem ou tem problemas com o pai. Todos, sem exceção. Que isso hein? Será que eu atraio inconscientemente...
-Jura?... Ah e daí? Eles eram iguais por isso?
-Não. Não é isso, é que é bizarro.
-Por que acha estranho? Porque seu pai também é um traste?
-Sei lá...
-Ah nada a ver. Não fica esquentando com bobagens... Isso só prova que tem muito homem que não vale nada. Tem que peneirar. Mas que é estranho é.
-Viu. Eu disse que era estranho.
-Ai filha, deixa de bobagens e só peça que seja alguém que saiba carregar a própria cruz e dividi-la e não um traste que seja a cruz e se jogue nas suas costas pra você carregar...
-Credo! Sai pra lá... Você fala que tem que peneirar e depois tudo se resume nisso?
-É. Porque o que mais tem por aí, não é alma-gêmea não; é algema!
-É, engraçado... Você jogou o traste do meu pai fora e nunca casou e fica enchendo o saco do Santo Antônio... Vamos gritar por aí nos casamentos como fazia Simone de Beauvoir ‘Libertem a noiva!!’
-Ai não é tão ruim assim também... Eu já vivi, já tive filho... Já fiz a minha parte.
-Ah é assim? Perpetua a espécie e ta resolvido? Se você quiser um neto, eu faço um e deixo embrulhadinho aí na sua porta...
-Ah eu vou desligar que eu tenho muita coisa pra fazer...
-Tá bom mãe...
-Um beijo e não esquece de rezar. Ah tem umas simpatias que a sua avó me ensinou...
-E você fez?
-Fiz.
-E conheceu o meu pai...?
-... (suspiro)...
-Deixa pra lá mãe. Eu mando um e-mail pra Santo Antônio e ta tudo certo.
-Tchau sua sem graça.